Uso da Literatura Clássica Brasileira como suporte para ensino de Português como Língua de Herança
- Clube dos Brasileirinhos
- há 1 dia
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Machado de Assis no Ensino de Português como Língua de Herança: uma experiência no Clube dos Brasileirinhos
Em outubro de 2023, o Clube dos Brasileirinhos esteve presente no VI Simpósio Europeu sobre o Ensino do Português como Língua de Herança (SEPOLH), com a apresentação da professora Luana Brunetto Caron. O trabalho compartilhou uma experiência desenvolvida com nossos alunos adolescentes, destacando o uso da literatura clássica brasileira como suporte para o ensino de Português como Língua de Herança (PLH).
Partindo da reflexão de Antonio Candido sobre o papel humanizador da literatura, entendida como construção estética, forma de expressão e forma de conhecimento, o projeto mostrou como o texto literário pode ir além do ensino da língua, promovendo pensamento crítico, consciência cultural e aprofundamento identitário.
O perfil do grupo
As atividades foram realizadas com alunos de 12 a 16 anos, que frequentam o Clube há muitos anos. São estudantes com bom domínio do português e sólida bagagem cultural. Alguns, inclusive, já haviam realizado o GCSE de Português. Tratava-se, portanto, de um grupo maduro, preparado para lidar com textos mais complexos e com as críticas sociais presentes na literatura realista.
Por que Machado de Assis?
No período do projeto, o tema gerador do termo era “Personalidades Brasileiras”, com o subtema “Autores Brasileiros”. A escolha de Machado de Assis surgiu naturalmente como um dos maiores expoentes da literatura nacional, frequentemente comparado a William Shakespeare pela profundidade psicológica e pela universalidade de suas obras.
Optamos por trabalhar Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance publicado originalmente em 1881, marco do Realismo brasileiro. A obra oferece uma narrativa inovadora, um narrador defunto e uma crítica social sofisticada, elementos que dialogaram de forma muito produtiva com o perfil do grupo.
Desenvolvimento das atividades
O projeto iniciou com a apresentação da vida e da obra de Machado de Assis, bem como do contexto social e histórico em que escreveu. Exploramos o período literário do Realismo, suas principais características e a escrita peculiar do autor, marcada por ironia, metalinguagem e crítica às convenções sociais.
Para apoiar a compreensão e ampliar o repertório cultural, utilizamos também histórias em quadrinhos baseadas na obra. Como aponta Caldeira (2021), os quadrinhos podem contribuir para ativar conhecimentos prévios e introduzir novos aspectos culturais no ensino de PLH. Esse recurso facilitou o acesso ao texto clássico sem simplificá-lo, funcionando como ponte para discussões mais profundas.
Os personagens foram analisados sob diferentes perspectivas:Brás Cubas e sua postura diante da vida;Virgília e suas escolhas;Eugênia e a questão do preconceito;Marcela e o que representava;Lobo Neves e o poder;o pai de Brás Cubas e a ganância;Dona Plácida e o segredo;Dona Euzébia e o cuidado.
Essas análises abriram espaço para debates sobre valores, ambições, hipocrisia social e relações de poder, conectando a obra do século XIX com reflexões contemporâneas.
Contação da história e linguagem persuasiva
Uma das estratégias utilizadas foi a contação da história com movimento, inspirada na técnica de stepping the story. Ao narrar determinados acontecimentos, os alunos associavam gestos às situações descritas. Por exemplo, quando Brás Cubas viajava para Portugal, abriam os braços simulando a travessia. Essa abordagem corporal favoreceu a memorização, a oralidade e o envolvimento ativo com o texto.
Também trabalhamos a linguagem persuasiva, analisando suas características e objetivos por meio de vídeos e pequenos textos explicativos. Essa etapa foi fundamental para preparar o produto final do projeto.
Produto final: um julgamento literário
Como culminância, os alunos participaram de um julgamento fictício com a pergunta central: “Quem quebrou o coração de Brás Cubas?”
A partir dessa provocação, levantaram possíveis culpados e escolheram seus papéis: juiz, promotoria, defesa, testemunhas. Cada estudante construiu seu posicionamento, elaborou argumentos e participou da criação do roteiro. O processo envolveu pesquisa, escrita, organização de ideias, prática de oralidade e trabalho colaborativo.
A apresentação final foi marcada por argumentações consistentes, uso consciente da linguagem persuasiva e demonstração de profundo entendimento da obra.
Literatura como direito e como ponte
A experiência reforça que a literatura clássica brasileira tem lugar no ensino de Português como Língua de Herança. Longe de ser inacessível, ela pode ser mediada com estratégias adequadas, respeitando o nível linguístico e a maturidade dos alunos.
Ao trabalhar Machado de Assis, promovemos não apenas o desenvolvimento linguístico, mas também o pensamento crítico, a ampliação do repertório cultural e o fortalecimento do vínculo com a herança brasileira.
Como nos lembra Antonio Candido, a literatura é um direito. E, para nossos alunos que vivem entre línguas e culturas, ela também é uma ponte essencial para compreender o Brasil, a si mesmos e o mundo.
Parabéns à professora Luana Brunetto Caron pela apresentação no SEPOLH 2023 e por compartilhar essa prática inspiradora que reafirma o compromisso do Clube dos Brasileirinhos com um ensino de excelência, sensível e culturalmente significativo.













































